A partitura e a areia: Concierto de Aranjuez

O turquesa do mar mexicano e o carinho especial que Paco de Lucía tinha por ele começaram há muitos anos. Diante destas areias brancas ele montou pela primeira vez o emblemático Concierto de Aranjuez, de Joaquín Rodrigo. O próprio Paco de Lucía contou certa vez:

Por Paco de Lucía, outubro de 2010.

Quando me propuseram tocar o Concierto de Aranjuez no Japão, foi um desafio para mim: nunca o havia tocado nem o sabia. Como costuma acontecer comigo, assinei o contrato e esqueci. Quando me dei conta, faltava só um mês para a estreia; pensei que só conseguiria aprendê-lo estando completamente sozinho e me abstraindo do mundo.

Para estudá-lo, fugi para o México, para a casa de Playa del Carmen. Levei meu roupão japonês, dois calções de banho, a partitura do concerto, uma pauta com os nomes das notas para poder decifrar aquilo e várias versões gravadas.

Foram dias duros, mas lembro deles com gosto. Cada manhã pegava meu arpão e ia caminhando uns 5 km pela praia até a pequena baía de X-Caret, que naquela época era intocada — era a minha peixaria particular. Ficava na água umas duas horas até conseguir a comida do dia, que geralmente era um pargo. De volta em casa, limpava e fritava. Uma delícia.

Depois de comer, instalava-me com minhas notas e meu cassete até a meia-noite.

Com a partitura localizava as notas e com as gravações compreendia os tempos. Essa parte foi a mais difícil, porque em muitas passagens as versões clássicas usam rubatos que não estão na partitura. Quantas horas passei com algumas passagens, ouvindo-as mil vezes até conseguir encaixá-las — porque, para mim, o mais importante naquele momento era respeitar o tempo.

Depois de um mês voltei a Madri: já o tinha.

Extraído de: pacodelucia.org

Foto de Carlos Salgado

Carlos Salgado | Sobre o autor

Fuera del mundo corporativo, desarrollo una escritura underground única que explora los territorios ocultos entre la tecnología, la consciencia y los misterios que la ciencia aún no comprende. Mis textos circulan en espacios alternativos, tejiendo narrativas que conectan el código digital con las fuerzas invisibles que mueven el mundo. Presencia visible: https://jcarlossalgado.com. Lo invisible permanece en las sombras

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